Com o podcast Vida Palmarina, a pesquisadora e produtora cultural Tatiana Nascimento dá detalhes da história e da organização social do Quilombo de Palmares, e reflete sobre o que podemos aprender com essa experiência
Rosi Rico

O Quilombo dos Palmares costuma ser lembrado como refúgio de pessoas escravizadas que fugiam da violência colonial e como território de resistência liderado por Zumbi. Mas sua história é muito mais ampla e envolve vários outros personagens. Durante mais de um século, Palmares reuniu cerca de 20 mil pessoas — entre negros, indígenas e brancos — em uma área de 27 mil quilômetros quadrados que abrangia parte dos atuais estados de Alagoas e Pernambuco. É o principal quilombo na história do Brasil e o maior de toda a América Latina.
Considerado por Danilo Marques, historiador da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a maior manifestação de rebeldia contra o escravismo na América Latina, Palmares construiu formas próprias de organização social, econômica e política. Naquela sociedade, a resistência ocorria nos momentos em que precisavam se defender de ataques, mas também podia ser observada na relação dos quilombolas com a terra, na maneira como produziam e distribuíam os alimentos, na criação de redes de convivência e na atuação das mulheres.
É essa dimensão mais complexa do quilombo que busca apresentar, em cinco episódios, o podcast Vida Palmarina, idealizado e apresentado por Tatiana Nascimento, pesquisadora, produtora cultural e mãe de um estudante do Vera.
Na entrevista a seguir, ela fala da importância de ampliar as narrativas sobre Palmares, analisa alguns dos principais aspectos dessa experiência e reflete sobre o legado do quilombo para os dias atuais. Confira a conversa e depois clique aqui para ouvir o podcast.
Zum-Zum – Como surgiu a ideia de produzir um podcast sobre o Quilombo dos Palmares?
Tatiana Nascimento – Com minha produtora de som, tive autonomia para escolher o assunto e a forma como abordá-lo. E me lembrei da Beatriz Nascimento, que é uma pensadora que eu gosto muito. Ela sempre questiona: “por que a gente não consegue contar nossa história? Nós somos sujeitos também”. Então tive vontade de contar a história das pessoas negras pelas próprias pessoas negras. E de fazer isso muito responsavelmente, do ponto de vista tanto historiográfico quanto de pesquisa.
O projeto antirracista do Vera, que na época se chamava Travessias, teve um papel importante nesse percurso. Por ter participado dele, senti uma responsabilidade ainda maior de tratar o tema de forma adequada. Fiz uma pós-graduação na USP [Universidade de São Paulo] e passei a ter contato com estudos mais sistematizados sobre antirracismo e relações raciais.
Em parceria com Caio Maia, da Central 3, que também tem filhas na Escola, decidimos fazer algo sobre essa temática. Foi ele quem sugeriu Palmares. Eu aceitei, mas queria mostrar Palmares de uma perspectiva diferente daquela que costuma aparecer nas narrativas. Eu queria entender o que acontecia no quilombo quando ele estava em paz e não apenas nos períodos de guerra. Que sociedade era aquela? Palmares foi atacado por portugueses e holandeses e precisou se defender. Mas também mantinha relações pacíficas com o entorno e era fornecedor de alimentos. Isso quase nunca é contado.
Como foi o processo de pesquisa para a série? O que mais a surpreendeu?
Venho estudando essa temática há pelo menos seis anos e consegui reunir pesquisadores com diferentes trajetórias e conhecimentos. Zezito Araújo nasceu na região da Serra da Barriga [no município de União dos Palmares, em Alagoas], foi um dos fundadores da Fundação Cultural Palmares e professor da Universidade Federal de Alagoas [UFAL] por 30 anos. A formação dele é palmarina. Danilo, também alagoano, fez mestrado e doutorado em São Paulo e voltou para a UFAL. E Bebel Nepomuceno, pesquisadora e jornalista, que trabalha na Casa Sueli Carneiro, estuda o continente africano e nos ajudou a retomar essa conexão com África.
Fui a Palmares antes mesmo de o projeto existir. Quando você junta as pesquisas, os relatos, o território e as vozes, percebe que o futuro estava há 500 anos.
Também me emocionou muito compreender como as mulheres aparecem na história do quilombo. A fala da pesquisadora Mariléia de Almeida foi especialmente marcante. Durante muito tempo, as mulheres ficaram restritas à memória oral, porque os colonizadores não as consideravam sujeitos dignos de serem retratados. Quando as populações quilombolas passam a ser reconhecidas como sujeitos de direito, especialmente a partir da Constituição de 1988, essas histórias começam a emergir.
Por que você diz que “o futuro estava há 500 anos”, em Palmares?
Porque Palmares era uma sociedade em que não havia acúmulo de capital como princípio organizador. O que se produzia e seus excedentes eram compartilhados. Não havia imposição de uma religião ou de uma única forma de se relacionar.
Era uma sociedade que buscava mais o que havia em comum, o que convergia, do que aquilo que separava as pessoas. Claro que, para isso, é preciso uma estrutura mais acolhedora, justa e menos violenta.
Palmares mostrava que outra realidade era possível. E isso apavorava a colônia, que queria apenas extrair riqueza deste território que passou a chamar de Brasil.
No podcast, você conta que havia várias lideranças, homens e mulheres, e que eles eram diferentes entre si. Fala das guerras, mas também dos períodos de paz. Por que é importante apresentar uma visão ampliada de Palmares para crianças e jovens?
É importante que crianças e jovens, que estão se formando como pessoas, saibam que não é natural sermos empurrados para um único sistema, uma única forma de viver. Há outras realidades possíveis, e elas já existiram.
Quanto mais opções você tiver, quanto mais a sua individualidade for aceita, e a gente buscar as convergências, mais livre você vai ser. Maior vai ser nossa capacidade de criar mundos mais interessantes e plurais. Não produzir no sentido capitalista, mas criar.
Vivemos uma época muito violenta, e essa violência está também em um modelo de mundo imposto “goela abaixo”, que já não cabe mais. Ele está matando muita gente.
As mulheres negras, por estarem nas bordas do mundo, têm uma visão muito ampla do centro. Como diz Rosane Borges [jornalista e professora universitária], elas estão gestando o impossível para existir. Por isso, é importante que a juventude entenda a amplitude das possibilidades que existem, ainda que nem sempre sejam visíveis.
Por que é necessário analisar criticamente a imagem de Zumbi como herói masculino?
A imagem que chega até nós como símbolo de Palmares é quase sempre a de Zumbi. O grande herói, o homem viril, forte e guerreiro. Mas Palmares não foi feito apenas por ele. A fundadora do Quilombo dos Palmares foi Aqualtune, mãe de Ganga Zumba, uma mulher de origem nobre e guerreira.
Nosso sistema patriarcal precisa criar mitos. Zumbi teve um papel muito importante, especialmente nos anos 1970, quando o movimento negro o escolheu como símbolo de uma história que havia sido apagada. Mas, em algum momento, ele também precisa ser visto como humano.
É importante descentralizar, não ficar em apenas uma figura. Abrir espaço para contar, por exemplo, o papel das mulheres, que foi apagado dos registros históricos durante muito tempo.
Como foi a atuação feminina? E quanto ela foi diversa?
As mulheres aparecem sobretudo pela oralidade. Sabemos, por exemplo, da figura de Dandara, embora ainda existam muitas questões sobre sua história: se foi uma pessoa, mais de uma, quais foram suas trajetórias. Mas sua presença atravessa o tempo e chega até nós.
No início, havia menos mulheres do que homens nos quilombos, porque a escravização priorizava corpos masculinos. Ainda assim, é significativo lembrar que Palmares foi fundado por uma mulher, a Aqualtune. Ela foi tirada do continente africano justamente porque tinha um título de nobreza e era conhecida por ser uma mulher guerreira.
Em muitas sociedades africanas, não havia essa divisão rígida entre o espaço doméstico e o campo político ou militar. As mulheres cuidavam das crianças e da casa, mas também eram estrategistas e estavam nos campos de batalha.
Nos quilombos, é impossível imaginar os homens indo para os campos de batalha sem que houvesse pessoas cuidando, organizando e gerindo as comunidades. As mulheres participavam dos conselhos e tinham seus próprios mocambos.
O fato de essas histórias ainda serem pouco conhecidas diz muito sobre o machismo que estrutura inclusive os movimentos sociais e a academia. As pesquisas sobre mulheres quilombolas começaram a ganhar mais fôlego apenas recentemente.

Você fala que as circunstâncias sociais vão permitindo avançar nos estudos e conhecer mais da vida nos quilombos. O contexto atual é propício para ampliar essas discussões nas escolas e na sociedade?
Acho que estamos em uma época-limite. Não sei se “propício” é a melhor palavra. Ou fazemos essa discussão, ou a situação vai piorar para muita gente.
Vivemos um processo de transformação profundo. Mulheres, pessoas negras e outros grupos historicamente minorizados não querem mais voltar atrás, e não vão. A questão é: como vamos acomodar tudo isso?
Ninguém quer eliminar ninguém. O grande movimento será feito por pessoas, especialmente homens, que estejam dispostas a se rever e a construir alianças genuínas. É importante, porém, que as discussões sobre machismo e racismo caminhem juntas. Não podemos escolher apenas uma pauta e deixar outra de fora.
Quando essas alianças se formarem, poderemos construir um mundo mais verdadeiramente democrático, em que as pessoas vão poder ser exatamente quem elas são. Vai ser um mundo muito melhor do que esse que a gente vive.
Qual é o papel das escolas nesse processo?
As escolas precisam aprofundar a conversa e abrir espaço para outras perspectivas reais. Isso exige mexer na estrutura, trazer mais pessoas diversas para ensinar e garantir que haja consciência crítica nesse processo.
Não basta apenas incluir pessoas; é preciso repensar os modos de ensinar e aprender. No caso dos povos indígenas, por exemplo, é fundamental reconhecer que muitas comunidades desejam suas próprias escolas, para preservar seus conhecimentos. As instituições não indígenas podem estabelecer diálogos, parcerias e convênios com instituições indígenas.
Precisamos de letramento histórico e racial. Muitos lados da história nos foram roubados. A gente aprendeu apenas um. A internet, apesar de seus problemas, também ajuda a democratizar conhecimentos antes restritos a poucos espaços.
Ainda hoje, há tentativas de apagar ou colonizar saberes produzidos por pessoas negras, indígenas e por outros grupos historicamente silenciados. A escola tem de lidar com isso, questionar quem tem sido considerado produtor de conhecimento, e não contar apenas uma história.
O que a relação dos quilombolas com a terra pode ensinar às crianças e aos jovens?
Um dado importante é que muitas das áreas mais preservadas do Brasil estão em territórios quilombolas. Isso revela uma relação com a natureza que não é de exploração, mas de pertencimento.
Nas referências iorubás que vieram da África para o Brasil, os orixás estão ligados aos elementos da natureza e à ancestralidade. Essa visão se aproxima de muitas perspectivas indígenas, de considerar que seres humanos, rios, árvores e animais fazem parte de um mesmo sistema. E esse sistema precisa ser preservado, porque, caso contrário, como está acontecendo, vamos matar a nós mesmos. Não se trata apenas de religião, mas de uma filosofia de vida.
Nos quilombos, a terra era fundamental também para garantir proteção e autonomia. Ter um território permitia criar formas próprias de viver, de produzir alimento, de organizar a comunidade e de construir uma política coletiva.
Há uma história muito boa, que é fato. Quando as mulheres fugiam para Palmares e outros quilombos, levavam boas sementes escondidas nas tranças para plantá-las nos novos territórios e poderem se alimentar. Essa memória mostra a relação dessas comunidades com a terra.
Que convite você faria para que as pessoas escutem a série?
Palmares pode parecer algo muito distante ou grandioso, mas os quilombos nos lembram que aquilombar também pode acontecer no pequeno. Acho que tem uma força grande pensar que essas modificações podem começar no seu campo de ação. Não podemos pensar que a transformação deve ser sempre grande.
Beatriz Nascimento tem uma frase ótima: “Meu espaço é meu quilombo. Onde eu estou, eu estou, e quando eu estou, eu sou.”
Acho que essa frase é um convite para lembrar que podemos ir do micro ao macro. Talvez esse seja o único caminho.