A vida em meio a rios

Turma do G4 foi convidada a investigar o cotidiano de quem mora próximo às águas para entender outras culturas e modos de vida  

REPORTAGEM Dimítria Coutinho 

Sonhar uma vida entre rios. Esse foi o convite feito às crianças de três e quatro anos, como parte do projeto “Imaginários geográficos”. A proposta de refletir e investigar a respeito da vida ribeirinha foi uma maneira de levar a turma a ampliar os horizontes sobre outras culturas e modos de vida. 

Inicialmente, os professores Fernanda Vignola e Samuel Oliveira fizeram algumas perguntas norteadoras para instigar as crianças: como as pessoas vivem perto do rio? Como se deslocam? O que muda quando moramos perto da água? 

Algumas crianças já tinham viajado para lugares com rios e foram compartilhando suas experiências prévias. Outras imaginaram. “Em vez de ter rua, lá tem água. E não tem shopping”, disparou Daniel. “Tem que ficar dentro de casa quando chove, porque quando chove molha o rio inteiro”, supôs Emília. 

“Moramos em um grande centro urbano. Mesmo não tendo essa vivência de perto com os rios, as crianças foram imaginando e se aproximando de outros modos de vida. Essa conversa inicial é muito importante, porque em cima das ideias deles é que vamos planejando como ampliar os conhecimentos”, conta a professora Fernanda. 

Depois desse momento inicial, os professores apresentaram vídeos e fotos da vida ribeirinha para a turma, destacando os costumes e modos de vida das pessoas que moram nessas regiões. Juntos, eles também exploraram livros e histórias sobre os rios. “Conversamos sobre o cotidiano das crianças que vivem nesses contextos para ampliar o olhar e construir conexões. Nessa investigação, o rio se apresenta como um território que se presta ao conhecimento de diferentes perspectivas de vida: dos bichos, das paisagens, dos povos, de seus saberes e mitos”, diz Fernanda. 


Brincadeira como eixo norteador 

A brincadeira foi o eixo norteador da investigação sobre a vida próxima dos rios. A principal linguagem adotada no projeto foi a gráfica: os professores propuseram que as crianças desenhassem aquilo que estavam imaginando sobre os rios. “Decidimos investir no desenho intencionalmente. É uma linguagem presente nos nossos contextos diários e nessa investigação. Perguntas sobre imaginar o rio ganham formas nos traços das crianças, assim como o uso de diferentes riscadores e suportes ampliam o repertório imagético da turma”, contam os docentes. 

A partir das intervenções do professor e da professora, o desenho foi ganhando mais intencionalidade, tanto na ocupação espacial do papel quanto na escolha das cores e tipos de traços. Durante a investigação, a linguagem gráfica veio acompanhada da narrativa oral, com o incentivo para que as crianças contassem as histórias que estavam imaginando nos rios. “Eu desenhei eu, minha mãe, meu pai e irmã nas canoas. Fiz também as casas na beira do rio!”, explicou Manu. 

“O desenho é algo que me encanta muito. É nele que as crianças fazem o pensamento tomar forma de maneira lúdica. Por meio da brincadeira e da imaginação, elas vão se aproximando dos fatos e daquilo que pensam sobre o mundo. O desenho expressa a alteridade e permite às crianças imaginar, representar e se relacionar com o que é diferente de si”, diz Fernanda. 


Riscadores como centro da pesquisa 

Depois de colocarem no papel o que pensavam sobre os rios, as crianças foram convidadas a criar seres que vivem nos rios. Nesse momento, a atelierista Dani Dini propôs a utilização de projeções e carvão. 

Os recursos digitais entraram para que as crianças pudessem brincar de viajar, navegar nas canoas e inventar criaturas que habitam os rios. Mais uma vez, o desenho foi utilizado para compor as imagens projetadas, ampliando as possibilidades. 

“Eu desenhei uma menina que mora no rio. Ela está na porta!”, descreveu Chica. “Aqui tinha um passarinho… Ele voou e foi para o ninho dele!”, imaginou Luiza. 

O carvão, por sua vez, foi adotado por ser um material não comportado e que, portanto, borra, gera manchas e possibilita apagar e refazer. “O carvão convocou as crianças a diversas investigações ao desenhar e imaginar as formas de seus seres do rio. O riscador tornou-se o centro da pesquisa, orientando os traçados escolhidos”, pontuaram os professores. 

Nesse momento, as crianças exploraram os traços e rabiscos não apenas para criar as criaturas dos rios, mas também para escondê-las. “O meu ser vai ficar invisível!”, disse João, rabiscando e esfumando o desenho. 

Sonhar rios para compreender o outro 

Para Fernanda, a grande força do projeto foi permitir que as crianças imaginassem um outro modo de vida, desenvolvendo a empatia e a compreensão sobre a riqueza e a potência da diversidade. “Quando povos atravessam rios, florestas, mares ou cidades, eles não levam apenas seus corpos — levam saberes, narrativas, técnicas, cosmologias e modos de organizar a vida”, afirma o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, uma das referências para o projeto. 

Nesse contato com outras culturas, a linguagem gráfica torna-se o espaço para expressar ideias e percepções. “Ao desenhar, a criança não apenas reproduz o que vê, mas interpreta e recria o mundo a partir das experiências que teve, como ao assistir aos vídeos, observar as imagens e conversar sobre a vida ribeirinha. Nesse processo, a criança tenta compreender o outro, como ele vive, o que sente, o que é importante em seu cotidiano”, afirma Fernanda. 

Apesar de viverem no maior centro urbano do país, as crianças também puderam, a partir do projeto, se sentir como crianças dos rios. A professora conta que, durante a investigação, chegou a discutir com a turma sobre os rios subterrâneos de São Paulo, canalizados e escondidos sob as ruas. 

“Poeticamente, isso se relaciona com a abertura de um livro que exploramos bastante”, conta Fernanda. Em seu início, o “Diário das águas”, de Gabriela Romeu, diz: “Caso encontre este diário, favor devolver às crianças das águas, aquelas que vivem nas margens dos rios ou também as que vivem sobre os rios escondidos em cidades asfaltadas”. 

Para saber mais 

LIVRO Diário das águas, de Gabriela Romeu. Ilustração de Kammal João. Editora Peirópolis, 2022. 

LIVRO O que é um rio?, de Monika Vaicenaviciene. WMF Martins Fontes, 2023. 

LIVRO Tapajós, de Fernando Vilela. Brinque-Book, 2014. 

LIVRO Pelo rio, de Vanina Starkoff. Pallas Mini, 2013. 

VÍDEO Veja como é a vida ribeirinha na Amazônia. 

PROJETO IMAGINÁRIOS GEOGRÁFICOS

PORFESSORES Fernanda Vignola e Samuel Oliveira 

AUXILIAR DO GRUPO Ivani Sousa 

ORIENTADORA Silvia Macul 

ATELIERISTA Dani Dini 

COORDENADORA Fabiana Meirelles 

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Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.