Do clássico ao slam: a palavra é de todos  

Turmas do 7º ano estudam poetas do cânone literário e autores contemporâneos para entender a capacidade expressiva da poesia, ampliar repertório e desenvolver pensamento crítico   

REPORTAGEM Mariana Gonzalez 

O que é poesia? Quem pode fazer poesia? Essas foram algumas das perguntas que os professores Greyce Mendes Santiago, Armando Silva Lima e Aline Borrely Ataide, de Língua Portuguesa, fizeram para as turmas do 7º ano quando elas foram estudar esse gênero literário. Além de poder compreender mais sobre tal tipo de texto, marcado pela musicalidade, pela subjetividade e pela escrita em versos, que podem ou não seguir padrão e métrica definidos, o objetivo era provocar os estudantes a pensarem em quem escreve. Para ajudá-los, os professores apresentaram uma variedade de textos e poetas, de clássicos de Manoel de Barros à poesia periférica contemporânea de Sérgio Vaz.  

“A bibliodiversidade norteia nossas escolhas e, por isso, oferecemos experiências de leituras diversas”, explica Greyce. O contato com essa multiplicidade de pontos de vista é uma prática da escola que favorece a construção de repertório cultural e de pensamento crítico. No caso da poesia, também colabora para o entendimento do potencial expressivo desse gênero literário.  

Antes de apresentar os primeiros poemas contemporâneos à turma, os professores retomaram alguns conceitos importantes sobre poesia apreendidos até ali. E questionaram: o que faz de alguém um poeta? A poesia é uma expressão individual ou coletiva? Ela é capaz de traduzir experiências compartilhadas?  

Clara Rimkus Devus, coordenadora da área, foi a responsável por incluir a poesia periférica no currículo há alguns anos e destaca a importância de desmistificar quem são os poetas. “Quando perguntamos para os estudantes qual é a imagem de um poeta, eles descrevem um intelectual escrevendo sozinho, tendo inspirações quase divinas. Então vamos desconstruindo essa ideia, mostrando que escrever poesia é fruto de trabalho e de pensamento”, comenta a professora. Sendo assim, todos podem ser poetas.  

Enquanto refletiam sobre quem pode fazer literatura no Brasil, os estudantes fizeram uma conexão importante e se lembraram da história da escritora Carolina Maria de Jesus, que conheceram ao final do 6º ano, com a leitura da biografia em quadrinhos, Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro. Também poetisa, a mineira Carolina trabalhou como catadora de papéis ao chegar em São Paulo, além de ter se dedicado à criação de figurinos e à música, como cantora e compositora.  

A partir dessas primeiras reflexões sobre poesia contemporânea, a turma foi dividida em grupos e cada um deles recebeu o vídeo de um poeta contemporâneo – dentre eles, o rapper Rincon Sapiência e Sergio Vaz, organizador dos saraus da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa) – para ouvir, refletir e responder a várias perguntas sobre rimas, vocabulário utilizado, temas abordados e as referências externas que aparecem no texto, dentre outros pontos.  

O resultado? Os estudantes entraram em contato com produções artísticas complexas, que lapidam as imagens poéticas e a linguagem de maneira criativa e engenhosa, e refletiram sobre realidades muito diferentes das suas, uma vez que os poemas são declamados majoritariamente por artistas negros e periféricos, que também colocam em seus textos as dificuldades econômicas e as violências que enfrentam em seus cotidianos. Assim, o estudo das poesias consideradas marginais serviu como uma ponte para discussões mais amplas, como desigualdade social, racismo e violência, e as maneiras como tudo isso se apresenta na sociedade.  

“Embora no 7º ano os alunos tenham familiaridade com conceitos como a desigualdade social, eles possuem pouco conhecimento sobre algumas situações que são vividas em outras regiões da cidade. Então, quando algumas cenas aparecem nos poemas que apresentamos, elas causam estranhamento e questionamentos como ‘por que uma abordagem [policial] no bairro da escola é tão diferente de uma abordagem na periferia?’”, explica Greyce.  

Os debates a partir de algumas dessas poesias colaboraram para os estudantes perceberem com mais clareza o contexto social brasileiro e suas diferenças. “Juntos, refletimos: se nem todos têm acesso a uma vida plena, o que isso diz sobre a nossa sociedade?”, completa a professora.  

A coordenadora Clara reforça que os Anos Finais do Ensino Fundamental são um período no qual os educadores buscam ampliar o repertório dos estudantes e estimular a construção de um olhar crítico. E isso também deve ser feito por meio de poesia. Apresentar os clássicos é importante nessa composição de repertório, mas é necessário expandir esse universo. Para ela, um dos desafios é desconstruir a percepção de que esse tipo de texto é desinteressante e distante do dia a dia dos jovens. “Nosso desejo é trabalhar os objetivos de aprendizagem relacionados às diferentes práticas de linguagem, mas também permitir que os alunos questionem quem pode fazer poesia para além de nomes tão distantes, de autores consagrados, que viveram décadas ou séculos antes deles.” 

“As manifestações dos estudantes diante das propostas realizadas são positivas e refletem os deslocamentos alcançados ao longo dos processos”, conta a orientadora, que cita o relato de Manuela G.A. “Para mim, ter aulas sobre poesia periférica abriu portas para que eu saísse dessa bolha em que vivemos e enxergasse a realidade brasileira.”   

Corpo e voz para potencializar o texto 

Ao final do trimestre, os estudos sobre poesia periférica passaram a incluir reflexões interdisciplinares sobre o uso do corpo e da voz para potencializar os discursos textuais nas práticas de oralidade. As turmas fizeram uma oficina de declamação de poesias com a professora Cibele Lucena, de Artes, que já fez parte do grupo Slam do Corpo, o primeiro slam do país formado por poetas surdos e ouvintes. Trata-se de uma batalha de poesias que acontece na imbricação entre a língua portuguesa e a língua brasileira de sinais. “Ela explica o que é o slam, como essa performance funciona e quais são as regras. Depois, ensina técnicas de leitura e propõe exercícios para mitigar a vergonha de declamar uma poesia”, conta Greyce.  

Os slams são batalhas de poesia falada, nos quais os jurados avaliam os versos, que devem ser autorais e ter no máximo três minutos. Além disso, eles analisam a maneira como tais versos são recitados. Não é permitido o uso de objetos de cena, apenas o poeta e sua voz.  

Para demonstrar o potencial dessa poesia, a professora cita um trecho do livro Teatro hip-hop: a performance poética do ator-MC, de Roberta Estrela D´Alva, atriz, poeta e pesquisadora do slam. “Nota-se, nas apresentações dos slammers, um trabalho artesanal que realizam com a palavra, que se torna uma ‘palavra visível’. Ela é tratada como um pedaço de barro ou de madeira, modelada, talhada, pintada com cores, em meio a recursos de velocidades, intensidades, repetições, densidades, timbres e ‘marcadores de oralidade’, e organizada para materializar o que não está presente e que os poetas desejam presentificar para o público.” 

Além de propor sequências didáticas que contemplaram uma diversidade de poemas, o projeto contou com um trabalho consistente de mediação de leitura de poemas desenvolvido na biblioteca, pela professora Alessandra Vaz da Silva Francisca.  

Um dos estudantes, conta Clara, leu um livro da poeta indígena Marcia Kambeba e escolheu a palavra “ancestralidade” para representar, em uma proposta pedagógica que envolvia a produção de uma palavra-imagem poética. “No dia do círculo de leituras, ele trouxe a imagem de um espelho e explicou à turma de modo muito tocante que, ao ver seu reflexo, enxerga seus antepassados, aqueles que vieram antes na linhagem familiar. Isso é muito potente, porque estamos falando de alunos muito jovens que, por meio da poesia, conseguem projetar outras formas de olhar para o mundo.”  

Para saber mais 

POEMA  Poema de Rodrigo Ciríaco 

POEMA Brisas Avulsas, de Mel Duarte 

POEMA “O Ministério da Saúde adverte, a educação morreu…” 

POEMA Poema de Elaine Marcelina  

POEMA Poema de Rincon Sapiência 

POEMA Poema de MC Bersa 

POEMA Poema de MC Zuleide 

POEMA Poema de Andrea Bak 

VÍDEO Canal Slam do Corpo 

LIVRO Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro. Veneta, 2016. 

LIVRO Teatro hip-hop: a performance poética do ator-MC, de Roberta Estrela D´Alva. Perspectiva, 2014.

PROJETO POEMAS

PROFESSORES/AS Aline Borrely Ataide, Alessandra Vaz da Silva Francisca, Armando da Silva Lima, Cibele Lucena e Greyce Mendes Santiago

AUXILIARES DE GRUPO Amora Nogueira Oliveira, Giulio Vieira Carvalho e Natália Coutinho Caetano 

ORIENTADORA Renata Maria Teresa dos Santos Francisco

COORDENADORA Clara Rimkus Devus

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Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.