Editorial

Dez edições, muitas vozes, um mesmo compromisso

Chegar à 10ª edição da Zum-Zum é motivo de celebração, mas também é momento de reforçar nossa responsabilidade. Desde o primeiro número, a revista vem cumprindo seu objetivo de registrar, dar visibilidade e ampliar o debate sobre o trabalho de educação antirracista do Vera. Ao longo desse percurso, fomos apresentando ações e iniciativas de uma escola em transformação, disposta a reconhecer o racismo estrutural, rever suas práticas e construir, coletivamente, outras formas de ensinar, aprender e conviver.

Avançamos na revisão do currículo e das práticas pedagógicas para adotar uma perspectiva multicultural, que permite aos estudantes entrarem em contato com diversas visões de mundo, incluindo as contribuições histórico-culturais dos povos africanos, indígenas e afro-brasileiros, para além dos europeus. A cada edição, as reportagens publicadas foram apresentando como esse currículo se desdobra em projetos de todas as áreas de conhecimento, da Educação Infantil ao Ensino Superior.

Também registramos o que foi aprendido no cotidiano: uma educação antirracista não se limita à sala de aula. Ela exige o envolvimento de toda a comunidade, estudantes, professores, famílias, funcionários, gestores e parceiros. Isso chegou até os leitores nos textos sobre as formações para as relações étnico-raciais dos docentes e do Grupo Makota Valdina, que reúne os funcionários administrativos do Vera, sobre as ações da Frente Antirracista da Organização de Famílias da Escola e do Comitê da Diversidade Racial e sobre as articulações realizadas com escolas e outros grupos.

A ampliação da presença de estudantes, famílias e profissionais negros e indígenas, por meio de bolsas e políticas afirmativas de contratação, é igualmente parte fundamental desse processo.

Nesta edição, a reportagem de capa e nosso podcast convidam você a refletir sobre convivência ética, um de nossos principais objetivos, que demanda a criação de um ambiente escolar em que as relações entre estudantes, professores, gestores e comunidade estejam baseadas no respeito à dignidade humana. Isso implica em ter responsabilidade e cultivar o cuidado com o outro.

Como a interação cotidiana e os vínculos estabelecidos acabam por ser um reflexo do que ocorre em sala de aula, nos corredores e demais espaços, a construção de uma convivência ética no Vera representa um desafio sistêmico, pois exige a adoção intencional de estratégias que articulem a atuação em todas as dimensões da Escola: projeto pedagógico, políticas de contratação e de formação das equipes, mediação de conflitos e parceria com as famílias.

Trata-se de um processo contínuo, que requer ação institucional, participação coletiva e abertura para mudar – como toda proposta que se pretende transformadora. Por isso mesmo, na edição de nº 10, comemoramos os avanços, as relações construídas e as aprendizagens que esta revista ajudou a tornar visíveis. Mas seguimos conscientes de que os desafios permanecem e que seguiremos aprofundando a revisão de nossas relações, do currículo e de tudo mais que for necessário. Que a Zum-Zum continue sendo esse espaço de encontro, reflexão e movimento de um coro de vozes comprometido em fazer da escola um lugar cada vez mais justo para todos.

Sobre a capa

O desenvolvimento da capa partiu do adinkra Obi Nka Obi (“Não mordam um ao outro”). Seu desenho, que sugere dois peixes tentando morder o rabo um do outro, simboliza uma advertência contra a difamação e a calúnia, ao mesmo tempo que incentiva a harmonia, a paz, o perdão e a justiça nas relações humanas.

Partindo dessa simbologia, o peixe tornou-se o elemento central da composição. Representado em diferentes formas e tamanhos, ele remete aos diversos agentes corresponsáveis pela construção de uma convivência ética na comunidade escolar. Guiados pela educação, esses atores convergem para um propósito comum: a promoção de relações mais justas e solidárias.

Os imaginários que elaboramos sobre o outro afetam diretamente as relações e, por isso, Juliana de Paula Costa, coordenadora do nível 1 (G5, 1º e 2º anos do Ensino Fundamental) do Vera Cruz, nos sugere “semear imaginários para fazer brotar novos afetos, imagens e sentidos”, na entrevista para a reportagem de capa desta edição. Em sintonia com esse desafio, a estética afrofuturista propõe novas possibilidades para a vivência negra, projetando futuros e mundos nos quais pessoas negras são protagonistas. Por essa razão, o trabalho da artista plástica liberiano-britânica Lina Iris Viktor, adepta desse conceito, foi a referência visual da capa. Sua produção é marcada pela evocação de uma Libéria utópica e pelo resgate de elementos e símbolos da cultura africana.

Conselho Editorial da revista Zum-Zum

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Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.